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Furacão Dorian na Flórida: Tudo continua o mesmo

Da Redação

29/08/2019 11h00

 

Com o furacão DORIAN * previsto para esse final de semana, lembrei desse texto escrito para uma publicação local em 2004.
Pouca coisa mudou.

*O estado americano da Flórida decretou estado de emergência na quarta-feira (28) enquanto aguarda o furacão Dorian, que deve chegar ao leste do estado na tarde de domingo (1º) depois de passar perto do norte das Bahamas no sábado (31). Especialistas alertam que o furacão pode vir a ser classificado como de grau 3, um "furacão poderoso", quando chegar à Flórida, com ventos de mais de 178km/h.

Charley(*) e eu

Logo no meio da tarde da última sexta-feira, o telefone começou a tocar.
Eram familiares e amigos querendo saber de detalhes. Detalhes do quê? Eu estava tranquila, sem nenhuma preocupação, assistindo filme na televisão.
Mas, com a insistência dos telefonemas, resolvi mudar e sintonizar determinado canal local de televisão.
Perdi o final do filme,…… tão interessante! Depois pego numa locadora e vejo se teve happy ending.
Tratava-se de um furacão, daqueles de vento mesmo. Qualquer semelhanças aos que já passaram pros lados econômicos no patropi, é mera coincidência. A passarela para este furacão já estava demarcada com a precisão dos horários dos outrora trens ingleses no Brasil, dos tempos das décadas de 30, 40 do século passado.
O canto superior esquerdo da tela da televisão, anunciava a hora e o local exatos onde Charley passaria:

19h28 tal lugar;

19h32 tal lugar;

19h35 tal lugar;

19h38 tal lugar;

Enfim, precisão milimétrica.

Com o mapa memorizado, ficamos imaginando quando o olho do furacão atingiria o nosso bairro, o nosso quarteirão, a nossa rua e finalmente a nossa casa.
A impotência do homem frente a fúria da natureza. Fast and furious.
E a televisão dando cobertura permanente aos acontecimentos em todas as localidades por onde já havia passado, e o que se aguardava nas previstas para a passagem.

Na véspera, os meteorologistas fizeram a previsão que Charley passaria por Tampa (FL) e pediram evacuação da população do local. A maioria desses habitantes seguiram à risca a orientação e vieram para Orlando (cidade distante a 80 milhas 130 km). Hotéis com a capacidade máxima. Até os turistas que tinham previsto suas partidas para 6ª feira, não conseguiram embarcar, e também não tinham onde ficar.
Nos aeroportos, voos cancelados, ninguém desce e ninguém sobe. Após cuidar dos funcionários e passageiros, a próxima preocupação das companhias aéreas é com as aeronaves estacionadas no pátio dos aeroportos: transportá-las para portos seguros, longe do caminho previsto do furacão.

>   Na manhã da sexta-feira, outro comunicado meteorológico anunciava mudança de rota, e previa Orlando no olho do furacão pelo começo da noite.

Muitos cancelaram a viagem, deixando a visita aos parques de diversões para uma época mais segura e calma.

Os canais de televisão continuavam sua cobertura, com o horário previsto para a chegada do olho do furacão, milha por milha, cidade por cidade, cronometrado.

A  energia elétrica acabou antes mesmo que soubéssemos o horário preciso, previsto para a passagem do furacão pela casa. Felizmente um radio a pilhas, tirado do fundo da memória e da gaveta, nos permitiu seguir os acontecimentos, como nos tempos antigos: todos na sala, em volta do aparelho. A energia elétrica só voltaria ao meio-dia do dia seguinte.

Uma de nossas leigas preocupações era com os ventos fortes que derrubam galhos e árvores, e os mesmos podem se chocar com janelas de vidro, estilhaçando-as em todas as direções.

As prefeituras publicam e distribuem, periodicamente, manuais de sobrevivência para esse tipo de catástrofes, enfatizando a necessidade de se armazenar água potável suficiente para pelo menos 4 dias, período necessário para que as equipes de socorros cheguem. Dentre os itens necessários, lanterna é imprescindível, agasalhos e cobertores, velas e fósforo.

> Na sexta-feira, antes de sair de casa para sofrer e passar medo na casa de primos, tomei  banho, pois na falta d'água, quando seria meu próximo banho, e com  água quente?  Não nos esqueçamos que no verão a temperatura ambiente média é de 35° C. À sombra.

As ruas estavam quase que desertas pois todos estavam em suas casas aguardando a chegada do furacão. Parecia até inicio de jogo de futebol do Brasil em Copa do Mundo.

Ao  chegar na casa dos primos, o que fazer? Beber foi a melhor solução!

Conversa vai, conversa vem, raios vem, trovões chegam, ventos balançam as árvores onde só conseguíamos ver suas silhuetas vergadas. A chuva era como jato d'água nos vidros, limpando-os melhor que qualquer compressor de água.

E nós, sentados na parte mais central da casa, protegidos por terraços e varandas, atendendo nossos telefones celulares, tranquilizando familiares e amigos.

> Por volta das 23h30 com a brandura dos ventos, fomos dormir. Com o embalo do champanhe, não foi difícil pegar no sono.

Passou.

Na manhã seguinte, fui para minha casa fazer o levantamento dos possíveis e inevitáveis estragos. No caminho, uma arvore caída num fio elétrico já estava sendo cortada por uma equipe de trabalhadores. No percurso, foi necessário prestar muita atenção nos  detritos do asfalto, pois qualquer descuido furaria um ou mais pneus.

Ao chegar na minha rua, um cordão de isolamento fechava a entrada. Meus vizinhos, todos na rua, conversavam sobre os acontecimentos da noite anterior, curiosos com o que aconteceu em cada casa. Outros já varriam e lavavam as calçadas.

> Ao sair do carro já peguei minha câmera fotográfica e tentei documentar a extensão do estrago. Três árvores adultas caíram, da calçada sobre o asfalto, impedido totalmente o trânsito local.

Na minha casa, felizmente, pouco aconteceu. Apenas 6 m da cerca de madeira de traz caiu, e em cima de uma das minha primaveras!

Após um café quentinho, fui eu conversar com os vizinhos. Ninguém ouviu barulho nenhum quando as arvores caíram. Numa das casas a água chegou a 10 cm no térreo e os proprietários usaram todos os lençóis e toalhas que tinham para conter maiores avanços. As máquinas de lavar e secar roupas (lembrem-se que estamos no país das máquinas) funcionam há quase 20 horas seguidas.

Sentei a minha mesa e comecei digitar para todos, família e amigos, dando noticias: SOBREVIVI.

> Por volta das 11h30, ouvi o barulho de um motor funcionando, e pela janela pude ver que os moradores da minha rua já estavam com uma moto-serra cortando os galhos das árvores caída para abrir o trânsito na rua.

Virou quase que uma festa de largo da matriz. Uns no batente, outros na calçada, olhando e dando palpites. Todos juntos: serra elétrica seguida de rastelo, pás, vassouras e sacos de lixo, recolhendo folhas e galhos de árvores caídos, seguidos de um assoprador elétrico que deixou a rua e as calçadas limpinhas. Ao ver tamanho mutirão, levei refrigerantes para todos,  um pouco do nosso  guaraná (Antártica  claro),  para animar o trabalho.

Por  volta das 16h30, a tarefa estava terminada. Uma salva de palmas para todos  foi o sinal que o trabalho (que deveria ter sido feito pela prefeitura e devido a não urgência, demoraria umas duas semanas), estava feito. Trânsito livre.

Os  vizinhos comentavam que nós todos deveríamos ter um desconto nos nossos  impostos  prediais pois fizemos, rápido e limpo, um trabalho que caberia à prefeitura. Somadas todas as pessoas envolvidas nessa labuta, chegamos a conclusão que foram mais de 150 horas/trabalho poupadas à prefeitura.

Hoje ao ver as fotos de ontem, me dei conta de que quando uma comunidade se dispõe a fazer  algo, não tem nada nem ninguém que a segure. E a satisfação de um  trabalho bem feito e terminado é a melhor recompensa.

Viva!

Felizmente só houve danos materiais, mas o primeiro furacão, sorry pelo plágio, a gente nunca esquece!

(*) Charley-nome dado ao furacão que passou pela Florida na 6a feira, dia 13 de agosto de 2004.>

Escrito em 16 agosto 2004

Sobre os autores

Amaury Jr.

É jornalista e apresentador de TV. É o mais conhecido colunista social do Brasil e considerado o criador do colunismo social eletrônico no país, onde mantém um programa de TV há 39 anos ininterruptos.

Bruno Meyer

Começou no jornalismo pela revista Veja. Foi repórter de cultura e titular da coluna Gente, espaço focado na cobertura de personalidades no Brasil e mundo. É autor do livro "A Vida É uma Festa" e editor deste blog.

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Sobre o blog

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