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Histórias do arquivo XVI

Da Redação

24/05/2020 16h50

Para conhecer Picasso, corria 1971, Mário e Malvina Gelleni acabaram hipotecando seu apartamento em São Paulo.

Conhecida pela sua tenacidade e dona da Galeria Portal, Malvina botou na cabeça  que faria a primeira exposição de Picasso no Brasil. E viajou para a França com o único objetivo de chegar até o pintor e viabilizar a exposição .

Foi um malabarismo. Picasso estava completando 90 anos, recolhido em seu atelier e aparecendo o mínimo e assim mesmo só para seu staff.Depois de uma série de manobras que incluiu até um motorista de táxi que tinha sido mordomo do artista, Mario e Malvina descobriram a Galeria de Madame Ramie, sócia da Jaqueline, mulher de Picasso. Tomaram o rumo de Vaulaurie pensando estar bem próximos de seu objetivo.

-Vocês querem conhecer Picasso? É muito difícil. Ele passa o dia enclausurado no atelier. Sentimos muito – decretou Madame Ramie.

Foi uma ducha de água fria para quem tinha viajado e esperado tanto. Desgastaram-se obstinadamente por aquele momento que ali desaparecia sem chance alguma.

Foi aí que Malvina teve uma idéia e só conseguiu a concordância de Mário porque, recém-casados e apaixonados, ele tinha que fazer bonito.

Vamos comprar alguns pratos de Picasso, ficaremos simpáticos e quem sabe  ele nos receba.

-Mas com qual dinheiro pensou Mário?

Para a idéia obter efeito precisavam fazer uma compra vultosa. Ligaram para o Banco Novo Mundo (do Toledo Piza, Álvaro de Aguiar e Fábio de Cápua), hipotecaram o apartamento e adquiriram um lote de seis pratos por US$200 mil dólares, uma pequena fortuna.

Mas funcionou e o resultado foi imediato. Madame Ramie ligou para Jaqueline, falou do casal brasileiro, da compra e naquela mesma tarde fizeram um apontamento.

Malvina relembra que quase desmaiou quando viu aquele jovem de 90 anos, calças jeans, enormes olhos negros, beijar-lhe a face com reverência. E não deixou passar nenhum minuto: falou que gostaria de tê-lo no Brasil com uma exposição, das grandes possibilidades de vendas, iam homenageá-lo pelos seus 90 anos. Picasso informou gentilmente que estava velho, não saía dali nem mesmo para ir ao Louvre, que era a coisa que mais gostava de fazer, mas que daria um jeito dela realizar exposição, contudo sem a presença dele. Ligou para seus marchands em Londres e em poucos minutos nascia a primeira mostra do artista no Brasil.

Foi a primeira exposição de Picasso na América Latina. Pietro Maria Bardi quase implorou para que a mostra fosse no Masp, mas Malvina não dividiria com ninguém o privilégio, ainda mais depois do trabalho e do dinheiro gasto. E foi um sucesso, o país ficou empolgado. O prefeito de São Paulo, Miguel Colasuono, mandou fechar a rua Augusta e formaram-se filas intermináveis durante dias para ver as obras de Picasso. E a hipoteca foi resgatada.

E os seis pratos de US$200 mil dólares? Foram dependurados na parede do apartamento dos Gelleni e acabaram virando lugar-comum. Até um dia que Malvina percebeu a falta de um deles . Achou-o esmigalhado, atrás do console, descuido da empregada. Mas os outros cinco, que valem pelo menos três vezes o que foram pagos, estão lá para o prazer de  uma boa contemplação. (Amaury Jr)

Sobre o autor

Amaury Jr. é jornalista e apresentador de TV. É o mais conhecido colunista social do Brasil e considerado o criador do colunismo social eletrônico no país, onde mantém um programa de TV há 39 anos ininterruptos.

Sobre o blog

O blog traz notícias, bastidores e informações exclusivas sobre quem é assunto no showbiz, na cultura, na política, nos negócios e em todas as rodas sociais.

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Amaury Jr.